Passei o verão de 1309 nos bosques próximos de Paris procurando desenvolver alguns dos poderes mencionados por minha amiga cigana. Foi numa dessas noite quentes que consegui pela primeira vez me transformar em um animal. No caso, numa coruja. A transformação-clichê em morcego ocorreu dois dias depois. Mas foi transformando-me em um lobo que vivi a experiência mais interessante.
Eu andava pelo bosque numa dessas noites quando me deparei com um lobo de olhos cintilantes me fitando na escuridão. Caminhei na direção do animal, que parecia me olhar com curiosidade. Arisco, saiu de seu esconderijo e fugiu para dentro do bosque. Transformei-me então em lobo, com a intenção de segui-lo. Tratava-se, na verdade – como percebi assim que concluí minha transformação – de uma jovem loba. Decidida a não permitir que eu a alcançasse e melhor conhecedora do terreno, corria à minha frente mantendo uma distância segura. Sem que eu me desse conta, a astuta criatura fazia seu caminho por entre as árvores e arbustos conduzindo-me na direção da alcatéia.
Não corremos por muito tempo. Após atravessarmos uma área de folhagem mais alta e densa, cheguei a uma clareira onde mais de vinte pares de olhos me fitavam ameaçadoramente. A jovem fêmea, ofegante, encolhia-se atrás de um grande macho cinzento, olhando-me apreensiva com a cabeça baixa, quase colada ao chão.
O lobo cinzento parecia ser o macho-alfa e não demonstrou qualquer simpatia por mim. Esticou o pescoço para frente, arqueando os ombros, e rosnou de forma pouco cortês. Como lobo, compreendi claramente o protocolo utilizado e as suas intenções. Ele aproximou-se lentamente, rosnando, com os dentes sempre à mostra, procurando flanquear-me. Seu próximo passo, sem qualquer dúvida, seria lançar-se sobre mim. Ele era maior do que eu e mais novo. Mas não era dotado de inteligência humana, não havia combatido os sarracenos e, definitivamente, não era um templário. Tampouco era um vampiro.
Nossa luta foi rápida e terminou com minhas patas comprimindo seu corpo contra o chão e com minhas presas cravadas em seu pescoço.
E então descobri um segredo que mudou o rumo de minha existência vampiresca. Um vampiro mantém sua vitalidade ingerindo o sangue de seus semelhantes. Sob a forma de lobo, o sangue de outro lobo era o sangue de meu semelhante. Agora eu sabia como aplacar a sede hedionda sem precisar sacrificar vidas humanas.
Bebi com avidez o fluido vital do derrotado líder da alcatéia enquanto os demais animais apenas observavam. Não houve novos desafios e nem qualquer oposição à minha nova liderança.
Quando soltei o pescoço inerte do macho morto e ergui a cabeça, meu focinho ensangüentado brilhou ao luar. Num desejo incontido de expressão, manifestei-me através de um prolongado uivo de vitória. E então vinte outros lobos juntaram-se a mim em coro, cantando para a lua.
Quando soltei o pescoço inerte do macho morto e ergui a cabeça, meu focinho ensangüentado brilhou ao luar. Num desejo incontido de expressão, manifestei-me através de um prolongado uivo de vitória. E então vinte outros lobos juntaram-se a mim em coro, cantando para a lua.

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